Arquivo de Ambiente

Dia Mundial das Zonas Húmidas

Ambiente, Autores, João Cunhaon Fevereiro 2nd, 2010Comentários Desligados

Hoje, 2 de Fevereiro, Dia Mundial das Zonas Húmidas… As Garças passeiam-se despreocupadamente pelo espelho d’água, os patos bebericam na margem, uma galinha d´água desaparece silenciosamente por entre os juncos, enquanto um grupo de tainhas é assustado por uma solitária enguia que desliza junto ao leito. Tudo isto pode acontecer nas nossas zonas húmidas.

Uma zona húmida “saudável”… sustentável, devido à massa de água e humidade, é um dos ecossistemas mais fascinantes e produtivos no mundo, alimentando, desde a base, comunidades de micróbios, insectos, peixes, anfíbios e aves. São habitats naturais para as mais variadas espécies de uma importância ecológica incalculável.

No passado vistas como charcos e pontos de agregação de moscas, mosquitos e mau cheiro. Hoje em dia são gastos milhões na sua conservação e requalificação (Paul da Praia da Vitória), contamos com mecanismos como a rede regional de zonas húmidas e a Convenção sobre Zonas Húmidas, adoptada a 2 de Fevereiro de 1971 na cidade iraniana de Ramsar (Convenção Ramsar), com objectivos como a conservação das Zonas Húmidas, promoção e a sua utilidade e funcionalidade para o Homem.

Os Açores contam com 12 sítios classificados como zonas húmidas junto da convenção de Ramsar, sendo o Planalto Central (Furnas do Enxofre e Algar do Carvão) o único ponto de referência na ilha Terceira, tanto pelo seu significado biológico como pela sua importância sócio-económica na recarga dos aquíferos para o abastecimento de água potável na ilha.

Actualmente, longe e bem perto de parcelas de terreno vistas como inutilizáveis, as zonas húmidas são patrimónios naturais relevantes a nível do desenvolvimento local e prestigiantes a nível internacional.

João Cunha

Em Jeito de Resposta

Actualidade, Ambiente, Autores, João Cunhaon Dezembro 17th, 20097 Comments

O meu colega nestas andanças online, Carlos Faria, expôs um bom argumento sobre a validade, ou pelo menos as suas preocupações pessoais, sobre efeito antropogénico no clima, ou seja… a acção Humana tem uma correlação directa nos padrões climatéricos do planeta? Vou aproveitar a dica para desenvolver um pouco mais (visto que os bitaites dos comentários só dão para tantas palavras) a minha visão, se bem que resumida, sobre a temática.

Desde meados do século passado, mais frequentemente nos últimos 20 anos, temos vindo a ouvir o termo “aquecimento global”. A maioria das pessoas tem a ideia que o termo deriva do aumento da temperatura do planeta, mas quanto à relação causa/efeito, subsistem dúvidas sobre a quantificação do fenómeno.

Podemos afirmar que o aquecimento global é um fenómeno “natural”, imaginemos o planeta como uma máquina extremamente complexa, com subsistemas que viabilizam a existência de vida, o aquecimento global é apenas um desses sistemas, onde os gases de estufa “retêm” a energia solar na atmosfera… daí o termo “efeito de estufa”. Esses gases podem ter uma origem natural, como o vapor de água, as emissões de origem geológica, ou os gases libertados por processos animais ou vegetais, mas outras emissões como o dióxido de carbono (CO2), nem sempre tem uma origem natural.

Ao “prender” o calor do sol na nossa atmosfera, os gases de estufa afectam a temperatura do planeta e impedem que este se torne num cubo (bola) de gelo, o efeito contrário também é possível, o arrefecimento provocado por partículas na atmosfera, mas essa é outra história a ser contada quando me der ao trabalho de falar sobre lagartos gigantes (referência velada ao SCP).

Como podemos ver * é um “sistema” essencial para manter o planeta habitável. O medo que se propaga pela comunidade científica é de que este processo de aquecimento global está a ser afectado pela acção Humana, o que poderá ter serias consequências para todos nós.

Talvez a questão mais importante, ou controversa, é a quantificação do impacto real que a actividade Humana tem no aumento ou velocidade do processo de aquecimento global… Tem sido argumentado pela comunidade científica que desde a industrialização do continente Europeu, ou seja o consumo em larga escala de combustíveis fosseis como o carvão e petróleo, que tem vindo a aumentar exponencialmente a presença do dióxido de carbono na atmosfera, e que tal acelerou o processo de aquecimento global.

A opinião pública e da comunidade científica parece estar de certo modo fracturada em relação ao tema, desde as pessoas que não acreditam ou não querem saber, até aos que dedicam a sua vida inteira à divulgação da “mensagem”. Até os governos mundiais não conseguem chegar a acordo, como presentemente estamos a ver em Copenhaga.

Porquê as reticências? Vemos o gelo polar a derreter, os glaciares da Patagónia a desaparecerem, a Gronelândia a tornar-se num paraíso tropical (não me citem neste ponto), dos gases e água doce presos no gelo, que por via do degelo poderão vir a ser libertados para o mar e atmosfera com efeitos inesperados na salinidade e atmosfera. Do nível do mar que poderá subir até mais de 5 metros.

Para não falar dos desastres naturais com origem climática que temos vindo a sentir anualmente um pouco por todo o lado. Estima-se que perto de 300 milhões de pessoas são afectadas pelas alterações climáticas anualmente, com um custo superior a muitos zeros (quando digo muitos refiro-me a valores que dão demasiado trabalho a converter de dólares para euros).

Quer acreditem ou não no efeito do Homem no nosso clima, nós como Humanos precisamos de tomar responsabilidade pelo bem-estar do nosso planeta. Conheço pessoalmente pessoas que pensam que toda esta temática é uma treta, mas mesmo assim compreendem a importância de salvaguardar o ambiente que os rodeia.  Nenhum de nós pode se dar ao luxo de não reciclar os nossos resíduos, de não compreender que mais cedo ou mais tarde iremos ficar sem combustíveis fosseis para queimar, que ao ritmo de consumo/desenvolvimento/crescimento Humano actual… os nossos filhos/netos não irão ter o mesmo nível de qualidade de vida que gozamos actualmente. Temos um efeito quantificável no planeta, disso não me restam dúvidas, resta saber até que ponto nos danamos pelas nossas acções.

*Geralmente não gosto de usar esta expressão, pois pressupõe que o leitor é apresentado a factos científicos inquestionáveis. Mas enfim, entendem o que quero dizer, certo?

João Cunha

Gestão de Resíduos

Actualidade, Ambiente, João Cunhaon Dezembro 16th, 20092 Comments

Segunda-feira (dia 14) tive a oportunidade de assistir à inauguração do novo centro de triagem de resíduos recicláveis da empresa ResiAçores,  responsável, em parceria com os dois municípios da ilha, pela gestão de resíduos da ilha Terceira.

Um investimento significativo, por ventura resultado dos excelentes resultados a nível da recolha de recicláveis na Terceira, o sistema de gestão de resíduos do país que recolheu mais materiais recicláveis, por habitante, segundo os dados estatísticos da Sociedade Ponto Verde.

Tenho pena de não ter fotos da instalação para publicar, mas entre discursos, comes e bebes e a habitual visita guiada, restou pouco tempo, também o facto de me ter esquecido da máquina fotográfica poderá ter contribuído para a ausência de fotos. Mas não posso deixar de dizer que as instalações são deveras impressionantes.

De qualquer modo, no meio de toda a azáfama, questionei-me sobre quantos dos presentes contribuíam pessoalmente para esse esforço. A vasta maioria dos recicláveis recolhidos tem origem nos sistemas de recolha aos chamados “grandes produtores”, ou seja o comércio e o sector da restauração.

Apesar de termos resultados excelentes que comprovam um esforço significativo por parte dos sistemas municipais e privados de recolha de resíduos, os produtores domésticas continuam a ser um segmento problemático que deve ser “educado” para os benefícios da separação de resíduos recicláveis.

Quando se fala em “reciclar”, está-se a falar do quê exactamente? Reciclar é definido(definição impromptu) como um conjunto de processos, que incluem a recolha e triagem de resíduos e a sua transformação em novos produtos e matérias-primas que contribuem para o aumento do tempo de vida útil de um produto que à partida teria como destino de “fim de vida” o depósito em aterro sanitário. Este processo (reciclagem) pode ser optimizada quando praticados os três R’s da gestão de resíduos… reduzir, reutilizar… reciclar.

Reduzir a quantidade de resíduos produzidos é um fim atingido através de medidas sociais que reduzam o consumo de produtos. Quanto menos gastares… menos lixo produzes… mais amigo do ambiente és…

Reutilizar os produtos adquiridos serve para aumentar o tempo de vida do objecto/produto… sim, não colocar os sacos de plástico do Hiper no lixo é um bom exemplo de reutilização, tal como imprimir frente e verso na impressora ou deixar os emails no outlook em vez de espalhados em cima da secretária.

Mas porquê reciclar? Reciclar para reduzir a quantidade de matérias-primas utilizadas no fabrico de produtos. Ao reciclarmos papel estamos a reduzir o número de árvores abatidas. Com uma menor desflorestação, estamos a contribuir para uma menor erosão dos nossos solos e para níveis menores de emissões de carbono.

Reduzir as matérias-primas consumidas é importante, mas igualmente importante é reduzir o espaço “consumido” pelo lixo/resíduos nos aterros/lixeiras. Vivemos numa ilha com os constrangimentos de espaço que daí advêm, o espaço disponível em aterro para a construção de novas bolsas (espaços de deposição controlada) para a deposição de resíduos é limitado. O aterro inter-municipal da Ilha Terceira ao ritmo de utilização actual deverá durar pouco mais de 3/4 anos, o que iremos fazer então? A construção de novos aterros segue regras específicas e limitadoras sobre os espaços que são ou não viáveis para a sua implantação, soluções locais são poucas.

Mas falar de reciclagem não é falar somente da optimização de recursos, a preservação do habitat natural é um factor determinante, especialmente quando nos deparamos com resíduos como as baterias, pilhas, acumuladores, lâmpadas, objectos que em forma de resíduos podem contaminar solos e aquíferos com químicos altamente prejudiciais para a saúde Humana e animal.

Resíduos plásticos como os já referidos “saquinhos do Hiper” são cada vez mais utilizados pela sociedade de consumo moderna, quando não reaproveitados tornam-se em resíduos altamente persistentes, levando cerca de 450 anos a serem decompostos pela natureza. Não só uma ameaça como “lixo”, mas também uma ameaça para a vida selvagem, o saco de plástico é uma das principais ameaças “Humanas” para a vida marinha, a Madail (Bióloga Marinha residente aqui do blog) que o diga, quantas tartarugas confundem plásticos com comida nos mares Açorianos? Com resultados trágicos.

Os benefícios de reciclar, para nós, para a sociedade, para o ambiente, deveriam ser mais do que evidentes. Mas o que nos depara é a futilidade de uns poucos perante a ignorância do todo.

João Cunha

Copenhaga Redux

Actualidade, Ambiente, Autores, João Cunhaon Dezembro 9th, 20095 Comments

Como alguns de vós devem saber, decorre presentemente em Copenhaga a Conferência  das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas.

Aparentemente, segundo o jornal inglês Guardian, alguns dos países mais desenvolvidos estão a tentar criar um documento preparatório para a redefinição dos princípios subjacentes aos esforços globais de diminuição das emissões de carbono que originaram em Quioto.

A reacção à divulgação deste documento de trabalho secreto foi, um pouco por todo o mundo, negativa, nomeadamente por parte dos países em vias de desenvolvimento. O que me preocupa, pois a conferência ainda agora começou e já um clima de suspeita se instalou entre os delegados.

Compreendo de certo modo as reticências e as acusações de paternalismo/imperialismo, o documento revelado pelo jornal inglês vem revelar um desejo de alterar por completo a relação entre países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento, no que toca às metas de redução de gases de estufa.

Quioto delegou no mundo desenvolvido a responsabilidade de liderar a luta “contra” as alterações climáticas resultantes da acção Humana, desresponsabilizando de certa maneira o mundo em desenvolvimento. O novo documento propões novos limites nas emissões, per capita, na ordem das 1.44 toneladas para o “terceiro mundo” e 2.67 toneladas para o “primeiro mundo”, limites a atingir até 2050.

A meu ver, a responsabilização dos países em vias de desenvolvimento até é bem vinda, tendo em conta que os limites propostos não são de modo algum os limites “finais” a serem aprovados no final da conferência. Não nos podemos esquecer que Quioto era demasiado permissivo nesta questão, se o problema é um problema global, então que sejam todos responsabilizados.

A disparidade nos limites é o maior entrave às negociações, os valores deverão ser semelhantes mas é normal que em tempos de desaceleração económica,  os países desenvolvidos vejam qualquer tipo de limites às emissões como uma ameaça à sua continua sobrevivência económica. Mas também é verdade que a vasta maioria dos fundos a disponibilizar aos países em vias de desenvolvimento irá prover da boa vontade da Europa e  dos Estados Unidos.

É um jogo que terá que ser bem gerido pelos intervenientes. Especialmente porque alguém teve a triste ideia de meter ao barulho o nome Banco Mundial. O documento trata da criação de um fundo para ajudar os países subscritores do acordo a atingirem as metas propostas, fundo este a ser controlado pelo Banco Mundial em conjunto com outros organismos internacionais, retirando a responsabilidade de manejo integral às Nações Unidas.

Para qualquer país em vias de desenvolvimento, o Banco Mundial é um organismo associado ao imperialismo ocidental e a atrocidades económicas e humanitárias… ao retirar competências financeiras às Nações Unidas para as atribuir a um organismo com intenções nem sempre benevolentes, é uma jogada que caiu muito mal junto dos sectores mais reaccionários da conferência.

De qualquer modo, no meio disto tudo, o maior problema é que os valores das reduções nas emissões apontados no documento não se aproximam nem por sombra das reduções de 40% que a comunidade científica defende. Corremos o risco de Copenhaga se tornar noutro marco inconsequente, como Quioto, na luta contra a acção Humana no clima planetário.

João Cunha

Saco de Plástico

Ambiente, Autores, João Cunhaon Novembro 6th, 20092 Comments

O saco de plástico… exemplo máximo de comodismo da sociedade moderna. Por cada iogurte, maçã, garrafa de cerveja ou caixa de pastilhas, a menina da caixa tem sempre um saco de plástico para nos socorrer da constrangedora sensação de “onde será que vou por isto?”.

Não é que não existam alternativas, desde o saco de papel, de pano aos cestos de vimes ou plástico. O problema é que as alternativas são bem mais dispendiosas do que os ditos sacos… mais baratos (até quatro vezes menos no caso do saco de papel), mais leves e impermeáveis.

Mas será que o nosso comodismo e o nosso bolso se sobrepõem ao custo ambiental de perto de 1 trilião de sacos (estimativa mundial) produzidos anualmente? Quando comparado com o saco de papel por exemplo, a produção do saco de plástico utiliza menos energia (- 40%), menos água, gera menos resíduos (-80%) e menos poluição (-70%) … a alternativa mais comum, o saco de papel, não é uma solução viável, o custo ambiental da produção é sem duvida mais elevado, tanto a nível da poluição/resíduos como no abate massivo de arvores.

Dados que fariam supor que o uso do saco de plástico colocaria um sorriso estúpido na cara de qualquer ambientalista? Não necessariamente… quantos de nós colocam o saco de plástico no ECOPONTO Amarelo? Quantos de nós reutilizam o saco de plástico para algo mais do que uma alternativa rápida ao saco do lixo? A realidade é que a vasta maioria dos sacos de plástico em Portugal vão direitinhos para os aterros municipais, e como sabemos, o plástico não é propriamente bio-degradável.

A solução para tanto desperdício? A reutilização, seja levar o saco de plástico quando voltar a uma superfície comercial para lhe dar novamente uso, ou colocar o dito saco para reciclar. Mas tal ideia vai contra o princípio máximo do comodismo nacional…

Como lutar contra essa inactividade ambiental? Seguimos o exemplo irlandês, sim os mesmos irlandeses a que chamamos retrógrados no seguimento de um qualquer referendo, estão a dar passos largos para combater os problemas motivados pelo uso excessivo do saco de plástico.

A Irlanda planeia duplicar o imposto a pagar por cada saco de plástico, primeiro como medida para proteger o ambiente, segundo como fonte de rendimentos para aplicar em projectos de sustentabilidade ambiental.

É preciso notar que a Irlanda foi a primeira nação a implementar uma taxa sobre a venda do saco de plástico em 2002, com efeito imediato no seu uso. O aumento substancial dessa taxa irá contribuir para promover o uso de sacos reutilizáveis e a racionalidade no uso dos recursos existentes.

Espero que o Governo Socialista aceite a proposta do grupo de trabalho que elaborou um estudo sobre a política fiscal, onde surge a recomendação para a subida no preço (mediante imposto) das embalagens e sacos de plástico.

O sucesso do caso irlandês só vem mostrar que o comodismo provocado pela disponibilidade barata do saco de plástico ao balcão das grandes superfícies pode ser combatido ao transitar o seu custo ambiental para o consumidor… de modo a que este sinta um impacto real e pare para pensar se deve ou não colocar aquela banana no saquinho.

João Cunha

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